sexta-feira, março 21, 2008

Licor de palavras


Beber as tuas palavras como se de um licor se tratassem. Um pequeno gole de cada vez, mordendo os lábios após cada um, para aproveitar cada gota, cada fragmento desse sabor que são as palavras ditas no teu discurso pausado. Sentir os arrepios do tom profundo da tua voz junto ao meu ouvido. O roçar da tua barba por fazer no meu pescoço. A emoção a tomar conta dos meus pensamentos, que me fazem balançar entre ti e a tua voz.


Crio uma realidade virtual à volta daquele instante, quando os teus lábios roçam o meu pescoço acidentalmente enquanto me ias sussurrar algo irrelevante, e a tua mão afasta os meus cabelos teimosos do meu rosto.


A tua mão tremia? Ou era eu? Ou era o licor a falar por nós?Deixei-me cair ali naquele momento, abandonada aos teus devaneios, entreguei-me a ti sem sequer me mover. A minha respiração parou, o meu coração abrandou perigosamente, e tatuei aquele momento no meu corpo.


A noite estava no fim, a sala estava cheia de gente, e nós tínhamos ali um espaço só nosso, em conversas transcendentes, em toques inocentes e tremores indesejados… A noite estava no fim, e eu tinha-te mostrado mais de mim do que aos meus amigos.


Eu não sei quem és, mas conheço-te.Talvez não te conheça, mas algo em mim sabe quem és, conheço o teu passado o teu futuro os teus planos e os teus sonhos, como se fossem meus.

Talvez não saibas quem sou, porque sonho sempre além daquilo que a realidade me permite, mas ali, naquela sala cheia de estranhos, senti-me única, porque foi ao meu lado que sentaste, e a tua atenção foi minha a noite toda, como se fosse realmente importante para ti estares ali comigo.


A noite estava no fim, e tu brindaste-me com um sorriso grandioso e um beijo na face.Os sonhos desfizeram-se, as luzes acenderam-se e as pessoas começaram a dispersar.

No fim, ficou o sabor das tuas palavras no meu ouvido, e o arrepio do meu pescoço na tua memória.


segunda-feira, março 17, 2008

Viro-me contra mim mesma… não posso fazer mais nada. Agarro-me ao que tenho, mas parece não ser suficiente. E tenho muito, mas não tenho o que procuro há tanto tempo.

Se morresse agora, havia muita gente a preocupar-se, a sofrer, a culpar-se… mas eu não, se eu morresse hoje, EU não me preocupava, EU não ia querer saber.

E revolto-me, porque sei quem sou, porque tenho um caminho traçado, e consigo percorrê-lo, apenas tenho pouca vontade de o fazer sem alguém ao meu lado. Porque me sinto destinada a viver sozinha, e isso magoa, arde, como pedaços de metal incandescente debaixo da minha pele… o meu coração vai batendo ao seu ritmo, e tudo o que eu quero é que ele pare, porque não me apetece estar viva.

Porque os passeios sozinha cansam, porque sinto falta das cumplicidades, de alguém que me diga todos os dias “ainda bem que estás aqui”. Eu não estou “aqui”, eu não estou em lado nenhum. Eu existo, uma existência surreal, silenciosa, calma. De quem aproveita tudo o que pode, mas não vive, eu não vivo, eu não consigo viver.

Revolto-me comigo, porque estou aqui, neste sonho, nesta perspectiva de futuro dourada, mas falta algo que lhe dê brilho, porque na minha existência eu não sou suficiente, e isso rasga-me os bolsos e deixa os projectos caírem por terra.

Encosto-me a uma parede qualquer e deixo-me escorregar até ao chão, cruzo os braços nos joelhos e desespero. Eu devia ser suficiente para mim mesma, mas não sou, e vou-me consumindo, em sorrisos, em boa disposição, em esforços sobrenaturais para acompanhar tudo, para mostrar a todos que está tudo bem… e está, porque estou bem, fisicamente bem, mas falta-me um pedaço de mim. Incompleta, e não gosto de me sentir assim. Eu sou, eu posso, eu faço. Arrasto mais uma perna para a frente, esboço mais um sorriso, evito pensar. Falta algo… não gosto de ser assim, não gosto de estar assim.

Já não me entrego, tenho medo, de deixar outro pedaço de mim com alguém, e ficar com outro buraco na alma… transformei-me neste animal desconfiado das sombras, nesta estranha que se olha de lado no espelho, com medo do que possa encontrar, transformei-me, e agora não há volta atrás.

Esmurrei-me de propósito, torturei-me, mas as lágrimas não querem vir, aquele lado sensível esvaiu-se, ou escondeu-se… sofro sem sequer conseguir sofrer, nesta apatia imperceptível, neste rancor manso, nesta existência artificial em que entrei, neste caminho triste de onde não sei sair.

13/03/2008


quinta-feira, março 13, 2008

Vendedores de Sentimentos

“What’s love but a secondhand emotion?”
E não é que ela tinha razão? Os sentimentos são todos assim, sentes, e entregas isso a alguém, vão em segunda mão, o original fica contigo, e só tu sabes o que ele significa na realidade, ele fica para sempre contigo. Entregas algo parecido, ou uma pequena parte daquilo que pensaste, que sentiste. Somos todos seres hipócritas e egoístas, o melhor fica sempre connosco, temos vergonha de entregar tudo, escondemo-nos atrás de escudos bem estudados de pessoas insensíveis, ou demasiado ocupadas para se preocuparem com essas lamechices de sentimentos, entregamo-nos aos pouquinhos, mas sempre bem escondidos, bem disfarçados de pessoas adultas que sabem controlar as suas emoções.
E depois?
Acabamos assim, feridos num silêncio abafado por gemidos de prazer fingido, que procurámos em pessoas tão hipócritas como nós. Porque nos recusámos a sentir, a amar de verdade, porque não queríamos dar tudo, com medo de não receber nada em troca… sim, porque o nosso medo não é dar, o nosso medo é não receber, é sentirmos que estamos a amar em vão, é sentirmo-nos sós, sentir que demos tudo, e como não recebemos ficámos vazios.
É por isso que nos entregamos a frivolidades mundanas, a orgasmos fáceis com desconhecidos tão voláteis como nós. Porque quem amávamos estava ali mesmo ao lado, e nós recusámo-nos a deixar-nos levar por esse sentimento arrebatador, com medo de ficarmos com ele nas mãos, ou sem ele, e sem nada em troca. Sanguessugas excitadas por palavras ocas, somos estripadores sentimentais, que se atravessam no caminho uns dos outros, esquivando-se milimetricamente das escassas sombras de sentimentos que vamos vendo perdidas por ai. Somos tarados sexuais a aproveitarem-se uns dos outros, somos crianças inocentes que suplicam carinho com gritos e berros, para não termos que ser nós a dar o primeiro passo, o primeiro beijo, o primeiro suspiro.
Porque amamos, e dizemos que amamos, e utilizamos esse amor como estandarte doloroso, mas só depois de sermos deixados para trás, só quando já não há nada a fazer, porque somos masoquistas. Porque na realidade não queremos fazer ninguém feliz. Queremos que alguém viva para nós, que nos satisfaça a todos os níveis sem pedir nada em troca, porque os nossos gestos esquivos têm que ser suficientes, porque os nossos carinhos escondidos, as nossas palavras suaves ditas em ardores nocturnos de sofreguidão conjunta têm que ser suficientes, porque as palavras comprometem-nos, e assustam-nos, porque nos obrigam a assumir algo, a sentir algo, a partilhar, a dizer ao mundo que partilhámos, a dizer ao mundo que sentimos, a dizermos a nós mesmos que somos frágeis, que amamos, e que podemos vir a ser amados de volta, e isso faz-nos vulneráveis, isso faz-nos menos que humanos, faz-nos pedir e suplicar por mais.
Mais carinho, mais amor, mais atenção, mais um beijo, mais um minuto, mais um abraço, mais, sempre mais.
E depois choramos as ausências, sentimo-nos abandonados e traídos, atiramos culpas ao vento, abandonamos a nossa própria vida porque ela parece deixar de valer a pena, porque perseguimos e atiramos coisas em cara, porque sentimos ciúmes, porque nos abandonamos ao desespero de não podermos ter o que queremos, porque só queremos porque não podemos ter... porque somos estúpidos, hipócritas e egoístas. Egocêntricos atordoados por delírios esculpidos no meio de dois corpos unidos pelo acaso, que depois se despem um do outro sem se despedirem, e o tempo segue o seu rumo como se nada fosse.
Somos refugiados de guerra, abrigados no beijo de quem estiver mais próximo, escondidos nos lençóis que se apresentem mais confortáveis. Somos prostitutas de sentimentos, vendemos este amor tão grande que sentimos por um pouco de atenção, por um beijo mais fácil, por uma noite descomprometida, por um amanhecer a dois seguido de… nada, então não temos medo, nem vergonha… podemos amar à vontade porque este compromisso não passa da alvorada.
03/03/2008

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

One more day in the city...

Nem sei porque estou aqui.


A cidade envolve-me sem nunca me deixar sentir que aqui pertenço.


As horas deixam-me a vaguear por aqui eternamente, porque se recusam a passar, esqueceram-se de mim... o meu passo não se altera, segue cadenciado com as batidas deste meu coração teimoso.


Não sei porque estou aqui mas...


... antes aqui que noutro lado qualquer.


quinta-feira, fevereiro 21, 2008

How to save a life

"Step one you say we need to talk
He walks you say sit down it's just a talk
He smiles politely back at you
You stare politely right on through
Some sort of window to your right
As he goes left and you stay right
Between the lines of fear and blame
And you begin to wonder why you came

Where did I go wrong, I lost a friend
Somewhere along in the bitterness
And I would have stayed up with you all night
Had I known how to save a life

Let him know that you know best
Cause after all you do know best
Try to slip past his defense
Without granting innocence
Lay down a list of what is wrong
The things you've told him all along
And I pray to God he hears you
And I pray to God he hears you

Where did I go wrong, I lost a friend
Somewhere along in the bitterness
And I would have stayed up with you all night
Had I known how to save a life
How to save a life

As he begins to raise his voice
You lower yours and grant him one last choice
Drive until you lose the road
Or break with the ones you've followed
He will do one of two things
He will admit to everything
Or he'll say he's just not the same
And you'll begin to wonder why you came

Where did I go wrong, I lost a friend
Somewhere along in the bitterness
And I would have stayed up with you all night
Had I known how to save a life
How to save a life
How to save a life

Where did I go wrong, I lost a friend
Somewhere along in the bitterness
And I would have stayed up with you all night
Had I known how to save a life
How to save a life
How to save a life
How to save a life"

The Fray - How to save a life


Às vezes um sorriso era suficiente...
Às vezes um sorriso era só o começo.
Às vezes uma sala vazia tinha gente a mais...
Às vezes a solidão batia-me à porta.
Às vezes qualquer coisa era melhor que nada...
Às vezes um "Olá, ainda estou aqui" resolvia tudo.
Às vezes um pouco de ti fazia-me esquecer que eu sou eu...
Às vezes uma presença silenciosa fazia milagres.
Às vezes fui dificil...
Às vezes também foste.
Às vezes a culpa foi minha...
Às vezes a culpa foi tua.
Às vezes, a culpa não foi de ninguém, foi porque foi e "o que foi não volta a ser"...
Às vezes, mas talvez só desta vez, meia dúzia de palavra alinhadas ao acaso, servem como uma espécie de despedida.

R.

domingo, janeiro 27, 2008

Fácil de Entender

"Talvez por não saber falar de cor, Imaginei
Talvez por não saber o que será melhor, Aproximei
Meu corpo é o teu corpo o desejo entregue a nós
Sei lá eu o que queres dizer, Despedir-me de ti
Adeus um dia voltarei a ser feliz


Eu já não sei se sei o que é sentir o teu amor,
não sei, o que é sentir, se por falar falei
Pensei que se falasse era fácil de entender


Talvez por não saber falar de cor, Imaginei
Triste é o virar de costas, o último adeus
Sabe Deus o que quero dizer


Obrigado por saberes cuidar de mim,
Tratar de mim, olhar para mim, escutar quem sou,
e se ao menos tudo fosse igual a ti[2x]


Eu já não sei se sei o que é sentir o teu amor,
não sei o que é sentir, se por falar falei
Pensei que se falasse era fácil de entender


É o amor, que chega ao fim, um final assim,
assim é mais fácil de entender[2x]


Eu já não sei se sei o que é sentir o teu amor,
não sei o que é sentir, se por falar falei
Pensei que se falasse era fácil de entender"


The gift, fácil de entender


para ti, a quem um dia disse tudo...


quarta-feira, janeiro 23, 2008

Hoje

Hoje não queria morrer. Há muito muito tempo atrás sim, mas hoje? Não. Hoje eu estava disposta a dar os passos todos que tinham que ser dados. Disposta a terminar todas as etapas, disposta a sorrir a viver um pouco, a experimentar os caminhos que me apontaste, a apreciar as pessoas e as conversas, hoje eu estava disposta a fazer essa “amizade” durar para sempre.Mas hoje achaste que não, talvez te tenhas cansado da monotonia de uma amizade assim, ou tenhas tido medo da ausência que vem a seguir, simplesmente achaste que não, e mataste-me.Arrancaste-me ao teu dia-a-dia, e foi como se nada se tivesse passado na tua vida.Hoje, talvez tarde demais, hoje eu precisava de viver, mas hoje tu mataste-me… porque me tiraste o porto onde me segurava, e o horizonte parece agora demasiado longínquo para eu nadar até lá.Hoje é um dia demasiado relativo, para ti é o futuro, e para mim, hoje, é o passado que regressa trazendo a vontade de desistir de amanhã.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

...

Repito-me, porque na vida tudo se repete... vezes e vezes sem conta.

"Como a peça de um puzzle que teima em não encaixar em lado nenhum. Isolada comigo mesma, não importa para que lado me vire, apenas encontro mais espaços vazios. Não há amigos ou família que me valham, porque também aí nunca encaixei.A solidão não me incomoda, nunca me incomodou. As refeições sozinha também não. Apenas começam a pesar as lágrimas que guardei nos bolsos, e as palavras que escolhi nunca dizer. Pesam as toneladas de sentimentos que nunca demonstrei, pesam os problemas que guardei para mim mesma. As preocupações, os medos, as euforias contidas. Pesa-me a minha própria sombra…Sinto o coração a diminuir de tamanho, as dores dos outros começam a deixar de me preocupar, à medida que vou sendo atropelada pela realidade da minha própria vida. Vida que não é vida, nunca foi. São passos mecânicos que vou dando ao longo do tempo, sem sequer me aperceber deles, tudo o que eu sou, o que eu fui, as metas, os desejos, eu mesma, a pessoa que gostava de ser, tudo isso ficou cá dentro, pura e simplesmente porque não se encaixava lá fora. E eu nunca quis ter que forçar-me a encaixar em lado nenhum.Continuo à deriva por aí. Sorriso de plástico colado no rosto, observando os outros, dando uma mão quando alguém precisa, mas ao fim do dia regresso ao meu canto. Envolvo-me nas minhas coisas e choro, porque mais uma vez me escondi em mim mesma, pelo bem das aparências, mais uma vez escolhi mostrar apenas o lado bom, pus mãos à obra, e esculpi uma nova pessoa aos olhos do mundo.Desenhei-a em cima do joelho, contornos bem carregados, interior meio difuso, para ninguém conseguir ver o que lá vai dentro.Tenho as lágrimas tatuadas no meu rosto, e no entanto ninguém parece dar por elas. O meu único desejo era conseguir desistir, mas não posso. O meu mais alto objectivo, era ser de facto transparente. Sinto-me assim, a cada dia mais, mas continuo a ver o meu reflexo no espelho, continuo a sentir os soluços virem de dentro. As mãos continuam roxas de frio, as faces rubras da raiva de ser assim.Não pedi a ninguém para nascer. Não há nada que me leve a querer ver mais um dia nascer, sei que o mundo irá continuar sem mim.Estou demasiado perdida, no labirinto de mim mesma já bati em demasiadas paredes, e em nenhuma delas gritei, porque algures no caminho encontrei uma placa que dizia “Não incomodar”. Eu não incomodo, juro que não. Fico aqui quietinha, e amanhã saio de novo à rua com um sorriso forçado. E no outro dia também, e no outro, e no outro… e no fim, quando eu morrer, as pessoas que ficarem não se hão de recordar do meu nome, serei apenas aquela miúda caladinha que tinha sempre um sorriso nos lábios."
18/11/05

... palavras de um dia negro

"A chuva caía na rua, pingos finos, estridentes nas pequenas poças que se acumulavam na estrada. Não havia ninguém na rua, o final de um sábado desconfortável era sempre assim, as pessoas fugiam para as suas casas quentinhas, e ele ficava ali, jogado no meio da rua, ao frio, ao vento...

Já não sabia viver senão assim, havia sempre alguém que lhe dava um agasalho, e tinha sempre a sopa quentinha ao cair da noite, junto ao lar de idosos. Mas hoje sentia-se diferente, algo não estava bem... um desconforto extra, inexplicável, porque dias como aquele traziam-lhe sempre boas recordações.

Chamava-se Joaquim Ernesto Santos Pardal, e tinha nascido há quase 40 anos na bela cidade de Luanda. Os pais haviam regressado a Lisboa sem nada, e haviam morrido de fome e frio há mais de 30 anos. Joaquim ficara entregue a orfanatos, de onde saíra com 18 anos, para trabalhar.

Cedo desistiu, e se meteu em tudo o que havia de mau, experimentara todas as drogas, dormira com todas as mulheres, da pior reputação, roubara, destruíra, embora nunca houvesse ferido ninguém. Não gostava de trabalhar, e não precisava, vivia na mesma, e livre, como gostava de pensar.

Era um homem grotesco... atarracado, com uma barba grande e malcheirosa, o cabelo bem comprido, roupas rasgadas, com um cheiro animalesco, um chapéu que um dia fora branco, mas que hoje era um emaranhado acastanhado de fios e ninhos de piolhos, possuía um olhar esgazeado, em tons de castanho, quase negro, e a sua pele estava tão queimada e rasgada pelo frio, parecia esculpida em pedaços de xisto.

Nunca saía do cais... no máximo, passava por Santos à procura da dose diária... e não se lembrava de ter viajado para além do Marquês, o dinheiro vinha sempre até ele.

Sentia-se demasiado importante, demasiado livre para se dar ao trabalho de gastar energias assim.

Estava no meio do Bairro Alto, e subia calmamente a Rua do Alecrim para se ir encontrar com o trafulha do Armindo nas traseiras da estação do Chiado, dizia ele que tinha produto do bom, quando viu que em sentido contrário descia uma miúda a chorar.

Joaquim não pensou, encostou-lhe a sua faca de algibeira à barriga e de repente a miúda agradece-lhe, agarra-o e faz com que a faca se espete no seu ventre.

Ele correu, chorou como nunca, e correu, entrou na estação e saiu de Lisboa, para nunca mais voltar.

Maria, a miúda chamava-se Maria. Tinha 14 anos, acabara por sucumbir depois de meia hora no meio da rua sozinha. Na sua sacola haviam encontrado uma carta de despedida, pelos vistos ia a caminho da linha do comboio, para mais uma tentativa de suicidio.

Joaquim morreu no dia seguinte, com um ataque cardíaco, no entroncamento, à espera do comboio que seguia para Coimbra."

PS - as personagens, acontecimentos e nomes são pura ficção... (de um dia muito negro!)

domingo, janeiro 20, 2008

Suspiro...




Suspiro, como o suspiro de um fantasma...




Se eu morresse hoje, era assim, como se nada fosse, algo suave, que desaparecia com um rasto amargo, quase imperceptível, que iria deixar meia dúzia de cabeças voltadas a pensar o que se passava ali.


Só os fantasmas iriam suspirar... um deles havia partido...

Forget-me-not

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Logo se vê

E do modo mais inesperado o horizonte abriu-me as suas portas... o deslumbramento do que se deparava à minha frente silenciou tudo o resto, como se de mim mesma me fizesse esquecer, e agarrando-me pela mão, levou-me a conhecer o mundo lá fora.


Fascinada, segui aquele trilho percorrido milhões de vezes por pessoas perdidas como eu, corri por ali, estaquei, apreciei, vivi e morri num momento qualquer que ninguém viu, mas a esperança voltou a mim... sim, talvez ainda seja possivel seguir em frente, talvez ainda hajam pessoas lá fora, se calhar a mudança é suficiente, e nas etapas que hão de vir, o estar sozinha não seja um entrave...


Talvez seja suposto amar assim em silêncio para sempre, e seguir para outro lado qualquer contigo no coração, e os olhos noutro lado qualquer...


Porque a incerteza me acompanha há tanto tempo, tenho a consciência que ainda te amo um pouco, de um modo diferente, mas que de uma maneira ou de outra, continuas presente em mim, porque não te quero ver partir... porque te admiro de uma maneira muito especial, porque às vezes quero acreditar que me conheces como ninguém, e porque tinhas razão, a solução aparece sempre, e tudo vai correr bem!


Hoje quero acreditar que sim... tudo vai correr bem, porque tu disseste que sim, e eu quero que sim, e se não for verdade não vai fazer diferença, não hoje, e amanhã... logo se vê.

sábado, janeiro 05, 2008

"E de mim me desprendo... sem vontade de ir nem ficar... dormir sem ter horas, dormir para sempre, dormir até que descubras a verdade e me libertes desta minha agonia de ser eu mesma sem sequer existir.


Vontade de abandonar tudo... de correr até que a pulsação acompanhe os raios de luz que outrora te iluminaram e te fizeram um pouco meu, porque te vi ali e sabia que nunca mais te voltaria a ver.


Desespero de ser ignorada, revolta, agonia... OUVE! Sei que não falo muito, e do pouco que digo a maioria são disparates, piadas, palavras soltas que vos atiro para que nunca saibam quem sou, o que sou, ou sequer se estou, mas...


Não, as palavras já não me acompanham, estou só de novo, tenho tanta coisa para dizer, tanta coisa para contar, tanta coisa tão irrelevante e no entanto as palavras abandonaram-me e vejo-me forçada a soltar estes lamentos desesperados, estes gritos solenes, estes chamamentos incoerentes para que elas voltem, porque continuo a não gostar de mim assim..."








Algures, num tempo que nunca foi, numa noite solitária, em lágrimas derretidas e com soluços esculpidos pelas mãos de alguém que nunca soube quem sou, nessa noite eu perdi a capacidade de escrever. Por vezes tenho uma vontade tremenda de me agarrar de novo a folhas de papel soltas e deixar que as mãos sigam por ali... mas os resultados são sempre os mesmos...

Não sei de mim, se alguém me vir a passar, por favor mostrem-me o caminho de volta.

domingo, setembro 09, 2007

Deciphering Me

"Friend, it's getting late, we should be going
We have sat here beneath these flickering neons for hours.
While I am cracking their code, you are deciphering me
For I am a mystery, I am a locked room in a tall tower.
Oh can you feel the gravity falling, calling us home?
Oh did you see the stars colliding? Shining just to show,
We belong.
We belong.
Your telescope eyes see everything clearly
My vision is blurred but I know what I herd
Echoing all around.
Well I am telling you and you are deciphering me.
Not such a mystery, not such a faint and far away sound.
Oh can you feel the gravity falling? Calling us home?
Oh did you see the stars colliding? Shining just to show,
We belong.
We belong.
Its love, its love that holds us
We will be alright
Its truth, its truth that shows us
As we walk in this life.
Its love, its love that holds us
We will be alright
Its truth, its truth that shows us
As we walk in this life.
Oh can you feel the gravity falling? Calling us home?
Oh did you see the stars colliding? Shining just to show,
We belong.
Oh can you feel the gravity falling? Calling us home?
Oh did you see the stars colliding? Shining just to show,
We belong.
Oh can you feel the gravity falling? Calling us home?
Oh did you see the stars colliding? Shining just to show,
We belong. "
Descoberta recente... Obrigada Diogo!

quinta-feira, agosto 30, 2007

=)




quarta-feira, agosto 08, 2007

Aqui novamente...

Talvez o tempo não tenha culpa da minha ausência, talvez apenas não me tenha apetecido encontrar comigo mesma... talvez.

A brutalidade das palavras vai ecoando nos meus ouvidos, rasga-me os pensamentos e obriga-me a regressar, sempre.

Há palavras que têm que ser ditas, mas o tempo não me deixa, esse Judas intrometido, não me deixa, ele não quer...

Não sou eu a ser egoísta, elas é que não querem vir, as palavras estão à espera da altura certa.

A culpa é delas, essas meretrizes invisíveis, essas tresloucadas, essas... esses pedacinhos de nada que deixamos sempre que digam o que não queremos dizer.

Há muito a ser dito, mas sou eu, e por isso... culpo o momento que não é o indicado, e o tempo que não permite, e as palavras que não se exprimem como deve ser...

Estou de volta. Triste, preocupada, inquieta, sorumbática... mas, estou de volta.


Um beijo

Drops


quarta-feira, março 28, 2007

Não me peças...

Ele aproxima-se e tu tremes.
Pedes-me que te ofereça palavras que não trago no bolso, e eu fujo.
Calo-me portanto. Volto as costas e sigo o meu caminho, indiferente às lágrimas que deixas escorrer.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Vamos dançar?

Não sei dançar, desculpa, mas não sei dançar. Também não canto, não pinto nem escrevo poesia, não sou artista de qualquer espécie.
Sou eu… olha! Apenas eu.
Aquela que atira palavras pela janela na esperança de que elas aterrem no colo de alguém que as entenda.
As palavras nem são minhas, não me recrimines, são livres e voam na direcção que querem. E quem as encontra, como tu, vê nelas o que quer, como quer… são palavras, e por vezes viajam sozinhas, sem as companheiras certas do seu lado… eu apenas as deixo cair, e com um sopro de brisa elas vão, com o meu amante calado das horas que se arrastam por dias e semanas de sentimentos calmos, esse mesmo inimigo irrequieto dos segundos que voam em sentidos atordoados e confusos…
Com ele, o tempo. Esse ladrão de vidas, esse amante insaciável, esse assassino impiedoso que me leva as palavras sem pedir licença.
Desculpa, mas eu não sei dançar, carrego nos pés o chumbo da vergonha disso mesmo, do desajeito em que vivo, do ritmo que nunca me bateu à porta, do sentimento de que não faço parte dessa melodia que tanto amo, mas que não consigo acompanhar.
Desculpa, mas eu não sei mesmo dançar. Contudo podemos ficar por aqui, sossegados, a partilhar a conversa dos dias que passamos sem nos ver, a rir das palavras sem sentido que encontrámos por aí, a viver um pouco em conjunto.
Nem tudo é dança, nem tudo é melodia, nem tudo é arte.

Não, não sou artista, não canto, não danço, não pinto. Um pedaço de barro nas minhas mãos irá ser sempre um pedaço de barro, e de uma pedra nunca verás mais que uma pedra, sou assim, simples.
As danças foram feitas para ser dançadas por quem queira, por quem goste, por quem sinta vontade, mas não por mim, não quando o chumbo me faz arrastar os pés, não quando no meu rosto não está tatuado o prazer dessa emoção, dessa vida, desse momento único que é dançar ao ritmo de algo que nos apaixona.

Desculpa, mas hoje não danço contigo…Amanhã, amanhã talvez até te peça para me ensinares, como me ensinaste tantas outras coisas que eu não conhecia. Mas hoje, aqui, agora, quando o tempo urge em me levar para outro lado, hoje não danço, hoje largo as palavras naquelas janela, e deixo-as irem no sabor do vento, encorajo-as a aprenderem a dançar, para um dia me levarem com elas.

sábado, janeiro 06, 2007

Vento

E veio o vento, forasteiro acabado de chegar de um deserto longínquo. Vento de outros dias, quente como as tuas mãos... abafou o som de soluços solitários, e secou a vontade de deixar as lágrimas caírem.
Esse vento, forasteiro, não levou o frio da tua ausência, apenas o disfarçou por um instante. Também não fez com que eu te esquecesse, e perdesse os motivos para chorar, apenas me fez ter vontade de esconder tudo, um pouco mais fundo.
Mas o forasteiro não tem culpa, veio de repente, e apenas de passagem. Não sabia das correntes que me amarram a esta folha de papel, e que me impedem de voar com ele. Também não sabia do frio que me povoava a alma, e por isso não tem noção do efeito devastador que este calor repentino vai ter nas lágrimas do futuro...
(Julho de 2006)
Ando por aí, não sei onde, não em que tempos caminho, as horas voam. a escola ocupa-me o tempo, e a cabeça vai andando por aí, atenta ao sopro do que passa...
desculpem a ausência.
um beijo
R

quinta-feira, novembro 02, 2006

why?



Why is perfection not good enough when you're not happy?

sexta-feira, outubro 20, 2006

Por aí......


E estou por ali... passeando nos meandros de mim mesma, e ainda à procura de respostas que parecem não existir........................

Saudades
R.

Foto - tirada por mim... má qualidade, boa intenção.