quinta-feira, junho 16, 2005

Eugénio de Andrade

Os amantes sem dinheiro

Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

(Eugénio de Andrade)

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Este é dos que conheço, o poema que mais adoro. Nem sei porquê...
Não, não foi um acidente, e a morte deste grande senhor não me passou despercebida... talvez o devesse ter feito no dia, mas acho que ele valia muito mais que uma homenagem no dia em que morreu, ele merece, e merecerá sempre uma homenagem quando bem nos apetecer, porque a sua alma é imortal.

2 comentários:

Um Mundo Meu disse...

Nunca percebi muito bem a "moda" de não se ligar importância nenhuma às pessoas, a não ser quando elas morrem. Revolta-me o cinismo de odiar alguém e, quando esse alguém morre, chorar muito e dizer que nos vai fazer muita falta...
Eugénio continua a viver, e continuará sempre. A sua obra está imortalizada, no papel e nos corações de muita gente. A sua grandiosidade será para sempre recordada, não porque o seu corpo já não está entre nós, mas porque a sua alma foi imortalizada...

Beijinhos!

Ritinha disse...

O poema é de facto lindissímo, assim como o teu gesto.
Beijo grande